A MORTE DE TIRADENTES

Foi no dia 21 de abril de 1792 que Tiradentes subiu à forca.

Era um sábado de sol, o mais lindo, o mais luminoso, o mais festivo sol que já brilhou no céu do Brasil.

Deus sabe premiar as grandes obras. Foi, com certeza, para receber a alma daquele que ia morrer pela nossa liberdade que Deus fez o céu tão bonito naquele dia.

De Portugal tinha vindo a sentença condenando à morte muitos dos inconfidentes. A rainha Dona Maria I, porém, havia mandado transformar as penas de morte em degredo (*).

E para que no Brasil ninguém mais tivesse coragem de conspirar contra o domínio português, o governo ia matar o chefe da Inconfidência diante de toda a cidade.

E para que a morte dele ficasse como uma lição na memória do povo, o vice-rei conde Rezende quis que se fizesse uma festa estrondosa. Mandou enfeitar as ruas e exigiu que os moradores enfeitassem as janelas; mandou formar todos os batalhões que existiam na cidade; mandou colocar ramos de flores no cano das espingardas dos soldados; mandou atar laços de fitas nas crinas e nas caudas dos animais montados pelas altas patentes do exército; mandou até ferrar de prata os cavalos que os desembargadores montavam.

- Que homem danado! resmungou a Mariazinha.
- Querem vocês assistir à caminhada que Tiradentes fez da prisão até a forca?

E depois de um silêncio:

- O Terreiro do Paço (atual praça Quinze de Novembro), as ruas da Misericórdia, da Cadeia (atualmente da Assembléia), estão apinhadas de povo e de tropas. Tiradentes está na Cadeia Velha, justamente onde hoje se ergue o palácio da Câmara dos Deputados.

São 8 horas da manhã. Ouve-se um toque de clarim. É o condenado que vai sair da prisão e seguir para a morte. A soldadesca se move, o povo se agita. Eis que Tiradentes aparece à porta. Está vestido com um longo camisolão de linho branco que lhe desce até os pés, uma corda ao pescoço, as mãos amarradas e um crucifixo metido nas mãos. Os seus olhos fundos brilham como dois carvões acesos, e as suas imensas barbas de quase três anos tremem ao vento.

E, à porta da prisão, ele pára, de cabeça erguida, olhos fixos no céu, olhando longamente o sol que, por mais de dois anos, não pudera contemplar.

Rufam os tambores. Começa a caminhada em rumo do largo de S. Domingos, onde a forca está armada. Os padres e os frades vão na frente cantando ladainhas. Tiradentes, com as largas barbas derramadas pelo peito, vai no meio, tendo ao lado o negro Capitania - o carrasco, que lhe segura a corda do pescoço. Seguem-se os oficiais de justiça, os magistrados, o batalhão do vice-rei. E atrás de tudo a carreta que transportará mais tarde o corpo do mártir 2, depois de esquartejado.

Vai o préstito pela rua da Cadeia. O povo acotovela-se nas calçadas e nas esquinas. Gente nas janelas, nos sótãos, nas árvores e até nos telhados. Os sinos de todas as igrejas dobram dolorosamente. A ladainha tristonha dos padres e dos frades não cessa um instante.

O cortejo caminha, devagar, muito devagar, para que a cidade se farte de ver o desgraçado que vai morrer porque conspirou a favor da liberdade.

Só ao meio-dia chegam ao Campo de S. Domingos.

Tiradentes pára. O carrasco faz-lhe o sinal para que suba os degraus da forca. E ele, de olhos serenos, fitando o céu, sobe o primeiro degrau. Todos se calam. Os tambores cessam de rufar. Cessam as cornetas e os clarins. Em todas as igrejas os sinos emudecem. Emudece também a ladainha dos frades. Tiradentes sobe o segundo degrau, o terceiro, o quarto, outros mais. E vai subindo, subindo. Chega ao alto. O carrasco mete-lhe no pescoço a corda da forca.

Frei José de Jesús Maria do Destêrro aproxima-se do condenado e, no meio do silêncio do povo, pede a piedade de Deus para o que vai morrer. Que os homens, as mulheres e as crianças o acompanhem na oração que vai dizer por alma do condenado. E, descendo a escada, vai cantando em voz alta: - Creio em Deus Padre todo poderoso, criador do céu e da terra...

Tiradentes lá em cima e o povo aqui em baixo vão repetindo uma por uma as palavras do frade.

Subitamente um grito na multidão. O carrasco tinha dado o empurrão da morte e o mártir, preso pelo pescoço, balançava na corda, esbracejando, agitando as pernas.

De novo os clarins. De novo os tambores. De novo os sinos nas igrejas. De novo a ladainha dos frades subindo tristemente para o céu.

Vovô calou-se. Nós, com o coração fatigado, não podíamos falar.

Segundos mais tarde o velho rompeu o silêncio.

- Tinha-se completado o crime da lei. Tiradentes foi esquartejado. O governo mandou depois colocar os pedaços do seu corpo em diversos lugares de Minas, para serem vistos pelo povo. A casa em que ele morou foi arrasada, salgada, para que ali nunca mais se erguesse outra casa.

E com vivo calor na voz prosseguiu:

- A forca, meus meninos, mata os homens, mas não mata a alma. Ao subir à forca, Tiradentes não era apenas um homem, era o sonho da liberdade brasileira. A forca matou-lhe o corpo, mas não lhe matou a idéia. A idéia, essa ficou, espalhada pelo Brasil.

O sacrifício de Tiradentes não se perdeu. Trinta anos depois, a independência que ele sonhou e pela qual morreu foi proclamada no Brasil. E mais tarde proclamou-se a república.

(*) degredo: Pena de desterro que a justiça impõe a criminosos; exílio; banimento;

Texto da obra " História do Brasil para Crianças" , de Viriato Correa

Fonte: Informativo@migalhas.com.br, edição de Sexta-feira, 18 de abril de 2008 - Migalhas nº 1.882 - Fechamento às 11h – www.migalhas.com.br

========== QUEM FOI VIRIATO CORREIA? =============

Viriato Correia (Manuel V. C. Baima do Lago Filho), jornalista, contista, romancista, teatrólogo e autor de crônicas históricas e livros infanto-juvenis, nasceu em 23 de janeiro de 1884, em Pirapemas, MA, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 10 de abril de 1967. Eleito em 14 de julho de 1938 para a Cadeira n. 32, na sucessão de Ramiz Galvão, foi recebido em 29 de outubro de 1938, pelo acadêmico Múcio Leão.
Filho de Manuel Viriato Correia Baima e de Raimunda N. Silva Baima, ainda criança deixou a cidade natal para fazer cursos primário e secundário em São Luís do Maranhão. Começou a escrever aos 16 anos os seus primeiros contos e poesias. Concluídos os preparatórios, mudou-se para Recife, cuja Faculdade de Direito freqüentou por três anos. Seus planos incluíam, porém, a radicação no Rio de Janeiro, e sob o pretexto de terminar o curso jurídico na metrópole, veio juntar-se à geração boêmia que marcou a intelectualidade brasileira no começo do século. Em 1903 saiu no Maranhão o seu primeiro livro de contos, Minaretes, marcando o aparecimento de Viriato Correa como escritor. O livro não agradou a João Ribeiro, que descarregou contra ele toda a sua crítica. Considerou afetado o título, proveniente do árabe, porque uma mesquita não tem nada e comum com contos sertanejos, que foi o tema da obra.
Por interferência de Medeiros e Albuquerque, de quem se tornara amigo, Viriato Correia obteve colocação na Gazeta de Notícias, iniciando carreira jornalística que se estenderia por longos anos e no exercício da qual seria colunista do Correio da Manhã, do Jornal do Brasil e da Folha do Dia, além de fundador do Fafazinho e de A Rua. Colaborou também em Careta, Ilustração Brasileira, Cosmos, A Noite Ilustrada, Para Todos, O Malho, Tico-Tico. No ambiente das redações, em convívio com intelectuais expressivos como Alcindo Guanabara e João do Rio, encontraria incentivo para a expansão dos pendores literários já revelados. Muitas das suas obras de ficção consagradas em livro foram divulgadas pela primeira vez em páginas de periódicos. Assim ocorreu com os Contos do sertão, que, estampados primitivamente na Gazeta de Notícias, foram reunidos em volume e publicados em 1912, redimindo Viriato Correia do insucesso de Minaretes. Outros livros de ficção viriam depois confirmar o contista seguro, pelo justo equilíbrio entre o ritmo empolgante e a pausa tranqüilizadora da descrições. Inspirava-se no cotidiano burguês ou campestre, em cenários exclusivamente brasileiros.
Obteve notoriedade no campo da narrativa histórica, ombreando-se com Paulo Setúbal, que também se dedicou ao gênero. Enquanto o escritor paulista deu preferência ao romance, Viriato Correia optou pelas estorietas e crônicas, com o intuito visível de atingir o leitor comum. Escreveu no gênero mais de uma dezena de títulos, entre os quais se destacam Histórias da nossa história (1921), Brasil dos meus avós (1927) e Alcovas da história (1934). Com o objetivo de levar a história também ao público infantil, recorreu à figura do afável ancião que reunia a garotada em sua chácara para a fixação de ensinamentos escolares. As sugestivas "lições do vovô" encontram-se em livros como História do Brasil para crianças (1934) e As belas histórias da história do Brasil (1948). Deixou ainda muitas obras de ficção infantil, entre elas o romance Cazuza (1938), um dos clássicos da nossa literatura infantil, em que descreve cenas de sua meninice.
O meio teatral, que freqüentou como crítico de jornal e mais tarde como professor de história do teatro, propiciou a Viriato Correia amplo domínio das técnicas dramáticas, transformando-o num dos mais festejados e fecundos autores teatrais em sua época. Escreveu perto de 30 peças, entre dramas e comédias, que focalizam ambientes sertanejos e urbanos, vinculando-o à tradição do teatro de costumes que vem de Martins Pena e França Júnior.
Foi deputado estadual no Maranhão, em 1911, e deputado federal pelo Estado do Maranhão em 1927 e 1930.

OBRAS DE VIRIATO CORREiA

Obras CRÔNICAS HISTÓRICAS: Terra de Santa Cruz (1921); Histórias da nossa história (1921); Brasil dos meus avós (1927); Baú velho (1927); Gaveta de sapateiro (1932); Alcovas da históri (1934); Mata galego (1934); Casa de Belchior (1936); O país do pau de tinta (1939).
CONTOS: Minaretes (1903); Contos do sertão (1912); Novelas doidas (1921); Histórias ásperas (1928).
ROMANCE: Balaiada (1927).
LITERATURA INFANTIL: Era uma vez... (1908); Contos da história do Brasil (1921); Varinha de condão (1928); Arca de Noé (1930); No reino da bicharada (1931); Quando Jesus nasceu (1931); A macacada (1931); Os meus bichinhos (1931); História do Brasil para crianças (1934); Meu torrão (1935); Bichos e bichinhos (1938); No país da bicharada (1938); Cazuza (1938); A descoberta do Brasil (1930); História de Caramuru (1939); A bandeira das esmeraldas (1945); As belas histórias da história do Brasil (1948); A macacada (1949).
TEATRO: Sertaneja (1915); Manjerona (1916); Morena (1917); Sol do sertão (1918); Juriti (1919); Sapequinha (1920); Nossa gente (1924); Zuzú (1924); Uma noite de baile (1926); Pequetita (1927); Bombonzinho (1931); Sansão (1932); Maria (1933); Bicho papão (1936); O homem da cabeça de ouro (1936); A marquesa de Santos (1938); Carneiro de batalhão (1938); O caçador de esmeraldas (1940); Rei de papelão (1941); Pobre diabo (1942); O príncipe encantador (1943); O gato comeu (1943); À sombra dos laranjais (1944); Estão cantando as cigarras (1945); Venha a nós (1946); Dinheiro é dinheiro (1949); O grande amor de Gonçalves Dias (1959).

Fonte:- Academia Brasileira de Letras www.academia.org.br

==================================

OUTRAS MATéRIAS

Neste sítio estão publicadas outras matérias relacionadas com as datas comemorativas do mês de abril. Confira:

Porque 22 de Abril não é feriado nacional ? Clique aqui
Tiradentes, Descobrimento e Dia Mundial da Terra Clique aqui
Grandes datas e nossos heróis nacionais Clique aqui


VOLTAR ao topo

EVENTOS

Veja os eventos que chegaram ao nosso conhecimento por mensagem de internautas (patriotismo@patriotismo.org.br):

ano: 2010 - Promissão (SP)

Cidade faz homenagem hoje a Tiradentes


A prefeitura de Promissão realiza hoje, às 9h, em frente ao Paço Municipal uma cerimônia solene para homenagear o Dia de Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira, e o Dia da Polícia Civil e Militar, comemorados nesta data, além do Dia do Exército Brasileiro, ocorrido no dia 19 de abril. O evento contará com a apresentação da Banda Marcial da cidade, além de membros do Tiro de Guerra, Legião Mirim, integrantes das Polícias Civil e Militar, do Grupo de Escoteiro e alunos de escolas.
fonte: JC (Jornal da Cidade), ano XLIII, ed. 14.616, 21-4-2010, caderno Regional (Municípios) - www.jcnet.com.br

Viriato Correia e Migalhas - www.migalhas.com.br - 4/21/2008

Nome
Email
Fundo de Tela:
Escolha sua configuração e baixe o seu:
Desenvolvimento: Aion Informática