VÁRIAS VIDAS NUMA HISTÓRIA DE VIDA

Salvador Santarosa da Costa nasceu no dia 11 de maio de 1933 em Itamaramdiba, MG, onde passou a infância e parte da adolescência. Itamaramdiba detém o título de "Cidade Solidária do Brasil"
Seu pai era garimpeiro e as dificuldades obrigavam família criar porcos no quintal da residência para consumo próprio e troca com outros itens básicos com vizinhos e comerciantes das redondezas.
Com 19 anos de idade, influenciado pelo comentário de que em São Paulo o povo "arrastava dinheiro com rodo", partiu de Minas com destino à terra dos paulistas e, após 6 dias de viagem num trem movido à lenha, "apeou" em Araraquara (SP), onde arranjou trabalho na usina Tamoio. Depois mudou para Oriente (SP), onde trabalhou na usina Paredão. Mais tarde, em Vera Cruz (SP) casou-se com Margarida, a “dona Nida” . Em seguida mudou-se para Agudos (SP) e depois para Macatuba (SP) onde vive desde 1954.
Já adulto e casado, por insistência do Sr. Hélio - o então encarregado de serviços da Usina S. José em Macatuba - foi iniciado na alfabetização. Contudo, até hoje não escreve e apenas lê “letras de forma ”.
Por cerca de um ano tentou a sorte na Capital paulista, para onde mudou e morou no Bairro de Santo Amaro, na esperança de realizar um antigo sonho: ser “motorista de ônibus”; que foi obstado porque “sua carta (carteira de motorista) era nova” e as empresas não contratavam inexperientes. Com a morte de uma filha em S.Paulo, desgostoso e sem realizar o sonho, voltou para Macatuba.
Além dela, teve outros 10 filhos. Hoje possui ainda 27 netos e 3 bisnetos.
Um dos filhos, nascido em S.Paulo, com a volta da família precisou ser registrado em Macatuba, onde a escrivã do cartório não ouviu direito o nome pretendido pelo pai (Mauro) e registrou “Marineide”. Esse erro somente foi corrigido cerca de 20 anos depois, através de ação judicial no então recém instalado Foro Distrital.
Mauro foi quem recentemente concretizou o antigo sonho do pai, passando a trabalhar como motorista de ônibus. Foi nessa função, transportando rurais para o trabalho na roça, num carreador da fazenda Rio Claro - localizada entre os municípios de Lençóis Paulista e Águas de Santa Bárbara, no centro do estado de S.Paulo - que Mauro avistou um filhotinho de ave, todo chamuscado pelo fogo ateado no canavial onde possivelmente estava o ninho. Esse filhote estava com uma das patas fraturada e não conseguia se mover; certamente iria morrer queimado.
Mauro trouxe a ave para casa, onde a entregou aos cuidados do pai, que lhe dispensou os primeiros socorros e trato até reabilitar-se. Logo de cara o filhote foi batizado “Chicão” pelo Sr. Salvador, pois todos na casa pensaram tratar-se de filhote de papagaio. A exemplo do Sr. Salvador e de Mauro, a família toda passou a cuidar daquela avezinha. Em pouco tempo a natureza revelou que na verdade ela era um gavião (retratado na foto ao lado).
Restabelecido e bem cuidado, com o passar dos dias Chicão "empenava" e crescia. Dona Nida, passou a ficar com medo de suas garras e do bico pontiagudo. Não mais queria que o marido mantivesse Chicão na casa. Pacientemente Salvador argumentava o contrário, até convencê-la de que a ave deveria permanecer solta pelos comodos e quintal da casa.
Um ex-vereador chegou a denunciá-lo nos órgãos de proteção aos animais silvestres, onde as autoridades concluiram que não havia qualquer infringência à lei, pois Chicão vive completamente livre, e permanece nas redondezas apenas por laços afetivos com as pessoas que salvaram-no da morte e com o lugar onde cresceu e vive, convivendo com as crianças e pessoas ao seu redor. Atende pelo nome que lhe fora dado e gosta que lhe passem a mão na cabeça.
Foi nesse contexto que Chicão tornou-se ave adulta. Todos se divertem com as suas peripécias e do jeito estranho de andar (até hoje a ave mostra dificuldades de movimentos no chão em decorrência das seqüelas da fratura numa das patas quando filhote). Contudo, esse defeito físico não o impede de alçar vôos pela região, e quando o faz, sempre retorna às redondezas da residência do Sr. Salvador, localizada no Bairro Santa Rita, altos da cidade de Macatuba (SP).
De vez em quando Chicão traz para casa objetos que apanha pelo município durante seus vôos.
Assim aconteceu recentemente, por duas vezes, com a chave de ignição de uma máquina da prefeitura municipal, que trabalhava próximo à residência do Sr. Salvador, reclamada pelos funcionários, após descobrirem quem era o autor daquilo que inicialmente acreditavam ser brincadeira de mau gosto de um ou outro funcionário. Na verdade foi mais uma "aprontada" do Chicão.
Certa vez a ave retirou outra chave que estava no contato de uma moto pertencente ao “Ziza de Abreu”, um morador de Macatuba que se viu obrigado a percorrer um longo percurso a pé, para reclamar a devolução da chave ao Sr. Salvador. Essa chave foi encontrada dias depois, no telhado da casa da família, sendo por todos dispensada maior investigação para descobrir o verdadeiro autor da façanha.
Outra curiosidade foi quando funcionários de um supermercado da cidade sairam em desabalada carreira, seguindo Chicão em pleno vôo até a casa do Sr. Salvador, para lá reclamar a devolução de um pequeno objeto brilhante que havia sido apanhado pelo bico certeiro da ave, no hall de entrada do estabelecimento (dessa vez haviam testemunhas oculares).
O respeito com a ave é tamanho, que durante um jogo de futebol juvenil no CART (Centro de Atendimento e Recreação do Trabalhador), quando Chicão pousou no campo, o jogo imediatamente "parou", interrompendo num momento crucial dos atacantes em direção ao gol adversário, até que Chicão resolvesse sair dali. Nem no calor da disputa houve quem assumisse o risco de uma bolada machucar a ave.
Hoje (16-5-2008), com apenas 2 anos, 4 ou 5 meses de idade, Chicão é a estrela da cidade. Já apareceu até na TV. Todos o conhecem. Circula e voa livremente pelas redondezas. Gosta de ficar entre a garotada, e é respeitado por todos.
Recentemente Chicão foi visto acompanhando outra ave da sua espécie. Salvador achou que era uma namorada, até que a sua neta, Ana Carolina, transmitiu-lhe a informação de que uma pesquisa na internet teria revelado que, pelas características da ave, é bem provável que Chicão seja na verdade “Chiquita”. Uma ave fêmea.
Posta a dúvida, o debate está fervilhando pelas ruas da cidade.
Porém, há uma unanimidade: Chicão (ou Chiquita) deve a vida ao "seu salvador”, trocadilho que as crianças fazem utilizando o nome desse homem que, como a ave, também tem problemas de locomoção com as próprias pernas e não pode dispensar o andador ou a cadeira de rodas (vide foto). Nem por isso Salvador Santarosa da Costa desanima. Participa ativamente da vida comunitário-cívico-religiosa de Macatuba, onde, como a ave, também é personagem conhecidíssimo e muito querido.
Como a história continua, a dúvida plantada pela descoberta da neta fez com que Salvador, com muita dose de humor, incluísse dois novos ingredientes nas suas histórias. Um é uma conclusão; outro, uma decisão, já tomada:
1) desta vez não poderá reclamar do engano com a escrivã.
2) se for o caso, dispensará os préstimos do advogado e da Justiça para mudar o nome Chicão para Chiquinha.

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(Esta história de vida marca a participação da Patriotismo no projeto coordenado no Brasil pelo Museu da Pessoa (www.museudapessoa.net), em comemoração ao "Dia Internacional de Histórias de Vida", que anualmente acontecerá nos dias 16 de maio. Maiores detalhes no sitio acima indicado, ou no endereço www.ausculti.org

Luiz Eduardo Franco - Macatuba, SP, Brasil - 5/16/2008

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