O Patriotismo

Por Miguel Reale (foto)

As coisas e as palavras caem em desuso e há sempre razões determinantes para esse fato. Mais fácil é encontrar o motivo do abandono de certas coisas, substituídas por outras que importam em maior utilidade para a vida humana, mas palavras há, densas de significado, cujo olvido exige explicação especial. Uma dessas palavras de que poucos hoje se lembram é patriotismo, muito embora o seu parente próximo, nacionalismo, seja a todo instante relembrado.

Ambos os temas denotam a pertinência a um país ou a um povo, mas patriotismo tem uma carga filial, como a própria palavra o revela (amor à terra dos pais, dos antepassados), e, no entanto, é muito raro alguém se recordar dela. O fato é tão estranho que se estende aos respectivos adjetivos, nacionalista e patriota, este para qualificar, excepcionalmente, uma pessoa que se tenha devotado deveras ao destino de sua gente.

Será que o desuso do vocábulo patriotismo demonstra falta de amor ao país onde se nasce? Não o creio, embora esteja convencido de que ele tenha perdido a plenitude de seu significado.

Patriotismo envolve vários valores que andam esquecidos, a começar pelos da tradição. Poucos são aqueles que se preocupam em saber quais são os sentidos dominantes na história de nosso povo. Felizmente, de uns tempos para cá, ao ocorrer, por exemplo, o centenário ou o sesquicentenário de homens como Rui Barbosa, Joaquim Nabuco ou Gilberto Freyre, a Nação toda se desperta para indagar do significado da vida dessas personalidades, o que quase sempre vem acompanhado da indagação da tendência que prevalece em nossa história. A tradição é o valor nuclear do patriotismo, porque é aquele que demonstra qual é a orientação dominante em nosso espírito, estando intimamente ligado ao cultivo amoroso da língua.

Foi com grande alegria que constatei a preocupação de saber qual teriam sido as notas por excelência de nossa cultura, reconhecendo-se que esta se distingue pelo amor ao que nos é peculiar e próprio sem ostentação e orgulho, mas, ao contrário, de braços abertos para os valores universais, ou seja, de outras gentes e civilizações. Já nacionalismo muitas vezes traduz afeição ou interesse exclusivo por determinado valor, às vezes religioso ou étnico, como se dá com os irlandeses ou os bascos, o que abre campo aos males do terrorismo.

Não que patriotismo e nacionalismo sejam termos antinômicos. Ao contrário, exigem-se reciprocamente, a pátria e a nação sendo vistas em sintonia, mas sem apego somente ao que é tipicamente nosso, o que muitas vezes não ocorre quando prepondera a paixão nacionalista. O nacionalismo pode, com efeito, representar uma teoria política que se distingue por não admitir nada de maior que seja de sentido universal, subordinando, por exemplo, os valores da liberdade e da igualdade a um campo restrito de interesses próprios, o que jamais acontece com o patriotismo, cujo amor à terra natal não impede que nela se acolham e vicejem valores comuns aos demais povos da Terra.

Causou-me, por isso, júbilo verificar como nos sentimos orgulhosos de ser um povo "mestiço", não apenas no sentido racial, mas cultural dessa palavra, uma "pátria" para povos de todas as origens e procedências. Daí não ser nosso patriotismo um "nativismo", algo de apegado unilateralmente a este ou àquele valor considerado o único natural e válido. O patriotismo, no Brasil, tem impressionante multiplicidade de cores e tonalidades, e somente por isso tal palavra não merecia andar tão olvidada.

Patriotismo significa também devoção ou dedicação, orientação das forças do espírito no sentido de bem ser nacional, o que, freqüentemente, importa em sacrifícios de natureza material. Nesse ponto, para mal de nossos pecados, não poderemos dizer que, ultimamente, tenha primado o patriotismo, como o demonstrou a desabonadora atitude dos juízes que não titubearam em lançar mão de inexistente direito de greve a fim de obter melhoria de vencimentos.

O patriotismo também alberga um sentido ético, devendo ser força bastante para repelir as benesses ofertadas pelos inescrupulosos senhores do poder econômico, à custa de quebra dos valores de cidadania, e, o que é pior, prestando-se a praticar atos de corrupção, o maior dos males que, hoje em dia, assolam nosso país. Esquecemo-nos freqüentemente de ligar cidadania a patriotismo, vocábulos que deveriam andar sempre juntos, para sabermos afrontar com coragem e desprendimento certas situações adversas.

Como se vê, o patriotismo representa também um valor político, não compreendendo como Norberto Bobbio haja excluído essa palavra de seu Dicionario de Politica, mas é mais um sinal do generalizado olvido de um tema essencial, pois o patriotismo implica uma atitude de serena imparcialidade ante os acontecimentos de seu país. Não é patriota verdadeiro quem fecha bondosamente os olhos ante comportamentos desabonadores de políticos, ainda que de nossa preferência partidária, e, no plano da vida civil, perante atos desairosos praticados por pessoas ligadas a nosso círculo de amizade.

No Brasil, esse risco de não formular um juízo imparcial, por falso patriotismo, é bem grande, porquanto nos envaidecemos em demasia com nossa capacidade de dar sempre um "jeitinho", condenável quando significa falta de responsabilidade, ou modo astucioso de contornar o dever da verdade e da justiça.

Por fim, cabe salientar que não há como confundir patriotismo com patriotada, pois aquele implica, como já disse, um juízo ético na apreciação das situações sociais e políticas, enquanto esta significa uma forma de exaltação de algo que, no íntimo de nossa consciência, sentimos não merecer nossa aprovação. Nada mais condenável do que arranjar uma desculpa para escusar um comportamento indigno, sobretudo em se tratando de assunto de interesse da comunidade. O patriotismo não pode, em suma, ser destorcido de sua fonte ética para justificação do ilícito.

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Miguel Reale, jurista, filósofo, membro da Academia Brasileira de Letras, foi reitor da USP E-mail: reale@miguelreale.com.br Home page: www.miguelreale.com.br
texto publicado no endereço: http://pensadoresbrasileiros.home.comcast.net/Migu

Miguel Reale - http://pensadoresbrasileiros.home.comcast.net/Migu - 4/1/2006

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