AMOR PUERIL PELA BANDEIRA BRASILEIRA

Em um recanto longínquo do interior do Brasil, no dilúculo do dia, com suas nuanças e brisas refrescantes, refletidas no modesto e humilde rincão de verdes paragens, rasgando todo o horizonte, dois irmãos, garotos pobres, com puros e ebulientes sentimentos patrióticos para a idade, absorvidos na vivência dos bancos escolares, e de uma família com uma reserva cívica transcendente, deliberaram aprestar no quintal de sua indigente moradia, com cercadura de lenha e gravetos, um mastro com a Bandeira do Brasil, como uma exornação cívica em seu lar, com sua sombra protetora e amiga. Esse intento atestava constritamente as santas emoções do dever de ambos à Pátria, explicitando um conteúdo de humildade e amor em seus castiços corações, e de uma apoteose transcendente de reflexões e pensamentos puros, aureolados de uma ledice e uma leniência contagiantes.

Recolheram de um pequeno baú, velho e abandonado, acantoado no casebre mais parecendo uma choça, mas digno a altivo, de chão de terra batida, contudo limpo e asseado, um retalho de tecido verde, já desvanecido pelo tempo e uso. Com uma velha e emugrecida tesoura sem corte, e sem o apresto prévio, molduraram um retângulo, sem nenhuma conformidade, pois desconheciam a ajustada proporção de seu tamanho relativo.

Na inexaurível imaginação acriançada de cada um, concebiam um majestoso pendão auriverde, com uma esfera azul celeste jugulando um aglomerado de estrelas fulgentes, num implexo feliz, de paz e aleluia. Era o pavilhão brasileiro, que eles veneravam com uma dedicação indescritível, na ternura do infindo amor, que assinalava o alentado embasamento e chama viva do espírito cívico, enraizado e evolucionado no decurso de suas vidas.

Não tinham em seu abarcamento nenhum modelo de abrangência de sua querida bandeira, porém, assentados nos desenhos feitos na escola, instituíram uma imagem dúlcida do que iriam conceber. O amor e a inclinação ao símbolo máximo da Pátria iriam sobrelevar e o intuito seria consolidado. Encontraram no baú avelhentado, um pano amarelo envilecido pelo tempo, quase branco, dilacerado e com apoucados furos localizados; não obstante, era o que dispunham na ocasião, e retalharam um losango. Com agulha e linha, o arraigaram no retângulo esverdeado, amassado e amolgado, mas que tinham ciência representava as nossas exuberantes e incomensuráveis florestas, entre elas a Amazônia, nossa Hiléia Brasileira, cheia de mistérios e com suas decantadas e engrandecidas riquezas e incontidas belezas naturais.

Procuraram um tecido para a esfera azul, mas não encontraram nenhuma dessa tonalidade no baú. Não houve nenhuma abdução diante desse percalço. Com os corações latejando pela sublime pretensão patriótica, cruzaram até o quintal, onde se entendia um caixote encanecido e carcomido, com andrajos velhos já atassalhados e encontraram na cor azul, uma calça amarfanhada de seu pai, uniforme de gari da prefeitura local. Recortaram então uma esfera, e com emoção incontida, engalanada em suas faces crestadas, implantaram-na no losango amarelecido, que naquele momento, concebia as desmesuradas riquezas minerais e opulências do Brasil.

Pronto! Articularam juntos, num momento de pura exaltação: Eis a nossa bandeira!... Mas estava inconclusa, faltava a legenda Ordem e Progresso, para rematar a altiva empreitada dos estuosos pequeninos irmãos.

Vibrantes, cheios de candura e com semblantes recheados de emoção e alegria profusa presenteando seus corações, numa atadura esbranquiçada encontrada ao acaso, anotaram com um carvão-de-pedra, o dístico mágico, criado por Benjamin Constant e o ataviaram na esfera azul, onde colaram estrelas de papel abolado, sabendo que cada uma simbolizava um Estado de nosso gigantesco país.

Faltava ainda o mastro. Encontraram um aprumado e túrgido tronco de árvore frondescente, derribado no chão, e incontinenti, falquejaram-no e enlaçaram as duas pontas de sua querida bandeira, de maneira inadequada, pois não tinham a conformidade exata. Era o melhor que poderiam ter feito. Encravaram então, o repentino mastro no piso do quintal, deslumbrados e assaltados por um silente, mas irrefragável fascínio de expectação.

Passaram então a admirá-la com devoção infantil, sentindo um grande desejo de acariciá-la, sem esconderem seus sublimes e pueris sentimentos, ao desfrutarem, no repouso da obra cívica, o panejamento de suas dobras, que esvoaçava na aragem de um sopro refrescante, amável e acolhedor, que imponentemente prestava tributo àquela insígnia sagrada. Mal dimensionada, desvanecida, e de trapos velhos, mas concluída com muito orgulho, ternura, devotamento e carinho; com o préstito do ardor patriótico de duas crianças cheias de humildade, contida interiormente em seus pequenos corações, que se agigantaram dentro de um pensamento nobre, flamejado pelo claror feérico e percuciente do amor à Pátria, rememorando Coelho Neto, quando escreveu em seu festejado e laureado Breviário Cívico: "Considera a Bandeira como a imagem viva da Pátria, prestando-lhe o culto do teu amor e servindo-a com todas as forças do teu coração".

Os pássaros, abvolando seus caminhos na brisa confortante, e rasgando todo o horizonte, com o sol alvacentado pelas nuvens, num alegre revoar, trinavam agitados, como aves de anunciação, ao cruzarem próximo ao recém edificado santuário cívico imerso de um raro esplendor. Com seus olhares adelgaçados, evidenciando um persistente regozijo, alastraram um lampejo de respeito e deferência àquele pavilhão sagrado, aprestado por inocentes mãos infantis, corporificando seus intentos primaciais com sobranceria, no iluminamento e expoência de suas nobres aspirações, confortadas em uma ideação comum.

Seguramente, esses garotos, na pureza cristalina e na maturidade natural e serena de suas vidas, arquivando adereços morais e éticos em seus corações, terão um imenso jardim interior repleno de harmonia, candura, afetuosidade e dedicação, e colherão as flores benignas e meigas no amanhã, contagiando e envolvendo a todos com seus predicados de amor e patriotismo, espargindo singela fragrância perfumada e aveludadas bênçãos de luz, de serenidade e de esperança. Serão eles, a embarcação da esperança, percorrendo pelos tempos, alastrando nas paradas de cada jornada, luzes sensíveis de conhecimentos, da grande escola da vida, onde iremos assimilar as doces carícias da semente do amor, da humildade e de grandiosos ornamentos de emoção cívica à nossa Bandeira e à nossa Pátria.

(O Autor é Membro do Lions Clube de Bauru Centro, assessor de civismo e cidadania do distrito lc-8-Lions clubes, doutorado em ciências policiais de ordem pública e segurança)

Cel IRACY VIEIRA CATALANO (Bauru, SP) - FALE CONOSCO - 12/29/2008

Nome
Email
Fundo de Tela:
Escolha sua configuração e baixe o seu:
Desenvolvimento: Aion Informática