PÁTRIA AMADA BRASIL?

(José Luiz Ames *)

Comemoramos de 1º a 7 de setembro a “Semana da Pátria”. As atividades envolvem, fundamentalmente, estudantes da educação básica e órgãos públicos. As falas durante as solenidades pouco ajudam a compreender o significado de “pátria”. Em geral são autolouvações dos administradores públicos e alusões genéricas sobre a importância de cantar o Hino Nacional.

Falar em pátria e patriotismo remete à idéia de pertencimento a uma terra, a um país, ao qual estamos presos pelas raízes mais profundas de nosso ser. Pátria evoca a idéia de continuidade histórica de um povo, garantida pela sucessão das gerações, e a idéia de um patrimônio comum de idéias, aspirações, símbolos, linguagem, valores culturais herdados de nossos antepassados. Contempla, pois, uma dimensão identitária: confere unidade à pluralidade dos indivíduos que constituem um país.

Na tradição interpretativa do termo, pátria foi, por alguns, assimilada à idéia de nação. Assim, patriotismo e nacionalismo acabaram, erroneamente, sendo confundidas. Nacionalismo é uma ideologia excludente. Ele é construído em torno da convicção de uma identidade constituída pelas tradições culturais comuns nas quais se incluem a etnia, língua e religião. Em virtude de seu caráter excludente, o nacionalismo fomentou, ao longo da história, a formação de governos totalitários, como o nazismo e o fascismo no início do século XX, assim como as práticas terroristas, como a dos bascos e a dos curdos na atualidade.

No Brasil, a associação da ideologia nacionalista ao sentimento patriótico coincidiu com os governos autocráticos do Estado Novo sob Getúlio Vargas e do regime militar vigente de 1964 a 1984. Quando as pessoas mais velhas expressam a queixa de que “no seu tempo havia amor à pátria”, deve-se receber isso com cautela. Na verdade, o período coincide com a instrumentalização do sentimento de amor pátrio pelos governos autocráticos desfigurando o real sentido de patriotismo.

Patriotismo está centrado no amor à liberdade comum e às instituições que as sustentam, e não na homogeneidade cultural ou lingüística. Este patriotismo se opõe à visão nacionalista e a diferença crucial reside na prioridade da ênfase: para os patriotas, o valor principal é a república e a forma de vida livre que esta permite. Para os nacionalistas, os valores primordiais são a unidade espiritual e cultural do povo. Os patriotas não nacionalistas entendem a virtude cívica como o apego às liberdades públicas e às instituições que as garantem, e jamais a vinculação à unidade étnica e religiosa de um povo.

O patriotismo entendido como um desejo de liberdade funciona como uma força que inclui e unifica. Une, não separa e exclui como o nacionalismo. A cidadania não nasce dos laços da nacionalidade. Os povos mais homogêneos cultural, religiosa e etnicamente não são os que têm maior espírito cívico. Pelo contrário, tendem a ser intolerantes.

A “Semana da Pátria” deveria significar mais do que simplesmente o culto a alguns símbolos, como o Hino e a Bandeira Nacional. O símbolo não é a realidade, mas apenas a representa. Hino e Bandeira Nacional não são a pátria. Apenas evocam, num determinado contexto, o real conteúdo dela. Cantar o Hino com emoção e comportar-se de modo reverente diante da Bandeira podem ser gestos vazios quando não seguidos de uma prática patriótica. Hino e Bandeira são como aliança no dedo dos casados: lembra à pessoa que ela tem um compromisso moral com outra. Aquele que ostenta uma bela aliança no dedo, mas trai a (o) companheira (o) é como a pessoa que canta com entusiasmo o Hino Nacional, mas não tem prática cidadã.

O dia 7 de setembro, auge das comemorações em homenagem à pátria, deve nos levar a uma reflexão sobre nossa condição de cidadãos. Amar a pátria é assumir a condição de sujeito ativo da construção da vida coletiva solidariamente com os demais. Patriotismo é atitude de defesa da liberdade democrática e das instituições republicanas que a garantem. Amar a pátria exige compromisso, participação na construção da vida coletiva. Fora disso é atitude oca, para não dizer farisaica.

* O Autor, José Luiz Ames é doutor em Filosofia e professor da Unioeste, campus de Toledo, PR. Como colaborador da Patriotimo, disponibilizou o texto para publicação.

José Luiz Ames - Colaboradores e correspondentes - 2/2/2009

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