Patriotismo primitivo acobertado pelos símbolos

Artigo de Zarcillo Barbosa aborda o fanatismo do futebol, comparado a um “patriotismo primitivo, espécie de união sagrada acobertada de símbolos nobres, como as bandeiras e hinos nacionais”, para lembrar que para conter a violência das torcidas não são necessárias novas leis, mas, sim, cumprir aquelas que já existem no Brasil.

Veja o artigo completo, publicado pelo JC Bauru (www.jcnet.com.br):



Torcedor de carteirinha

Se o povo soubesse como são feitas as leis e as salsichas...” A frase incompleta do chanceler Otto von Bismarck, no início do século passado fez o povo alemão refletir. Afinal, por que os governantes inventam tantas leis? Como é que os fabricantes conseguem dar aquela liga consistente e cor homogêneas às salsichas? Bismarck estava preocupado com a qualidade das leis.
No Brasil padecemos, no entanto, dos dois males: qualitativo e quantitativo. De 5 de outubro de 1988 – data da promulgação da Constituição brasileira – até 5 de outubro de 2008 foram editadas no Brasil, 3 milhões e 700 mil normas jurídicas, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. Mais precisamente: 3.776.364 normas. Em média foram criadas 517 normas por dia. Em matéria tributária foram 240.120 normas – duas por hora.
Corruptíssima res plublica, plurinae legis” – o mais corrupto dos Estados tem o maior número de leis, diziam os romanos. Na quinta-feira ouvi o presidente Lula anunciar o envio ao Congresso de um projeto de lei que “criminaliza” a violência de torcedores nos estádios. Vai criar a “carteirinha” para os torcedores bem-comportados. Quem não a tiver, não entra. Pelo menos pela porta da frente. Sempre haverá um jeitinho para os mais amigos ou com dinheiro da propina. As novas medidas visam dar um ar civilizado aos estádios brasileiros, na Copa do Mundo de 2014.

Na Europa não existe torcedor de carteirinha.Os hooligans (bandos de desordeiros) foram contidos com a aplicação dos rigores das leis já existentes. Depois de cumprida a pena na cadeia o juiz ainda obriga o bagunceiro contumaz a comparecer à Delegacia de Polícia na hora do jogo, sob pena de voltar ao cárcere. Mesmo assim ainda há brigas. Dizem que existe em todo homem um hooligan adormecido, que o coro das arquibancadas faz despertar para a violência. Rompe qualquer recalque e desafia qualquer repressão. Os psicólogos sociais gostam de encontrar respostas para tudo. Parece verossímil.A torcida, de fato, é uma liberação difusa da agressividade verbal ao erigir em ladainha o palavrão. Fortalece-se ainda com o contágio, nas Copas Mundiais.
A competição esportiva desperta um patriotismo primitivo, espécie de união sagrada acobertada de símbolos nobres, como as bandeiras e hinos nacionais. Nos campeonatos regionais, cada torcida tem o seu canto de guerra, seu símbolo, suas cores que pretendem defender até a morte. Se a sociedade tivesse este mesmo élan de solidariedade que as torcidas demonstram nos estádios, teríamos um mundo melhor. Pena que acabe com o apito do juiz, ou no caminho de casa quando a horda se dissipa depois de deixar um rastro de destruição. O homem é capaz de deixar a mulher amada. O clube, nunca. Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer. O manual lúdico-filosófico tem o saber acumulado que enaltece e condimenta a prática (e todas as teorias). Os sociólogos humanistas ingleses chegaram a culpar a pobreza e os abismos entre ricos e pobres como fatores determinantes de desmandos futebolísticos. Então, a cada semana teríamos verdadeiros apocalipses por todo o Terceiro Mundo e em boa parte do Primeiro. Ainda mais com o índice de desemprego atual... Recuso-me a aceitar essas construções abstratas, vincadas às vezes de ideologia, que passam por análises políticas. As entradas para os jogos são caras. Acompanhar o time em viagens até ao exterior custa muito dinheiro. Beber cerveja à saturação exige grana. Rojões, bombas, sinalizadores e toda a parafernália levada para atirar contra o “inimigo” clamam por investimentos. Pela lógica, os baderneiros vêem da classe das camadas com poder aquisitivo. Quando criança ia ao campo de futebol, levado pela mão do meu pai e me assustava ao ver cidadãos respeitáveis da minha comunidade xingar o juiz com enormes palavrões. Chefes de família exemplares, incapazes de matar uma mosca, com profissão definida e vida pacata, naquele momento transformados em bestas arrombando porta do vestiário para caçar o árbitro. Aos meus olhos de criança aquelas pessoas de ternos de linho branco jamais se ajustariam ao estereótipo do marginal. Mas isto não os absolve. A violência no futebol acontece também, e principalmente, em países que alcançaram alto nível de desenvolvimento econômico, cultural e institucional. Cidadãos entediados pela rotina e o autocontrole que a vida civilizada lhes impõem, dão se ao luxo de desmandar, vez por outra, fazendo-se de bárbaros e permitindo-se os excessos que lhes são vedados na vida diária.

De “carteirinha” já chega a de estudante, espécie de jabuticaba que só dá no Brasil. A foto que soluciona é aquela batida pelo fotógrafo da polícia para ilustrar a ficha criminal. Lesões corporais, danos ao patrimônio, rixa, tentativa e homicídio já estão suficientemente tipificados no Código Penal. Não precisamos de mais leis. O que falta é aplicá-las.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC (Bauru)
Artigo publicado na coluna Opinião do JC (www.jcnet.com.br ),ano XLII, edição 14.214, 15-3-2009

Zarcillo Barbosa - OPINIÃO, coluna do Jornal de Cidade (Bauru) - 3/15/2009

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