SETE DE SETEMBRO EM JULHO

Na coluna dominical assinada pelo jornalista Zarcillo Barbosa, o Jornal da Cidade (JC, Bauru,SP), trouxe um convite à reflexão sobre aspectos históricos, sociais e econômicos envolvidos na conquista da independência do Brasil.

Ao informar e instigar o leitor à reflexão sobre aspectos históricos do Brasil colonial, o JC cumpre a missão que declaradamente tem por objetivo desde sua fundação: “promover a cidadania democratizando o acesso à informação”.

Veja o texto:

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04/09/2011
Sete de setembro em julho

Na Bahia há raros desfiles militares e escolares no feriado de Sete de Setembro. Ninguém dá a mínima. A verdadeira festa comemorativa à Independência do Brasil acontece no dia 2 de julho, data da expulsão das tropas portuguesas de Salvador, em 1823. Os baianos têm fortes razões para festejar a data, que só perde em dimensão para o Carnaval. A população enfeita os balcões do casario colonial, estende faixas e os amigos se cumprimentam com muito axé, a saudação votiva de felicidade, no candomblé. É o sincretismo religioso que se manifesta. Foi na Bahia que ocorreu a guerra decisiva depois do Grito do Ipiranga. Durou um ano e cinco meses, mobilizou mais de 16 mil pessoas do lado brasileiro e custou centenas de vidas. Se os portugueses não tivessem sido expulsos do Brasil, o território teria se estilhaçado em várias republiquetas. Nos livros de antologia do meu tempo de grupo escolar havia um texto sobre a Batalha do Pirajá. A história do corneteiro Luís Lopes. Segundo os historiadores, os brasileiros corriam o risco de serem massacrados pelos portugueses. Dando a batalha por perdida o comandante ordenou a Luís Lopes o toque de recuar. O corneteiro fez exatamente o contrário. Deu o toque de “cavalaria, avançar e degolar!” Os portugueses, assustados com o inesperado regimento de cavalaria pronto para entrar em ação, teriam fugido desordenadamente.

Quem leu o livro-reportagem de Laurentino Gomes (“1822”) – deveria ser obrigatório às aulas de História do Brasil – sabe que este país era totalmente inviável à época da Independência. “De cada três brasileiros, dois eram escravos, negros forros, mulatos, índios ou mestiços.” Havia uma “economia agrária e rudimentar, dominada pelo latifúndio e pelo tráfico negreiro.” Ao retornar a Lisboa em abril de 1821, o rei D. João VI mandou rapar os cofres do Banco do Brasil e encaixotar às pressas o ouro, os diamantes e outras pedras preciosas estocadas no Tesouro. O banco quebrou três meses depois da partida do rei. O Brasil não tinha Marinha de Guerra. O Exército era de pés descalços e com poucas armas. Os diversos grupos da sociedade brasileira tinham interesses conflitantes. Um milhão e 240 mil escravos comiam torrão de terra com cupim para matar a fome e ameaçavam rebelião. Traficantes, fazendeiros, senhores de engenho, mineradores de ouro e diamante, clérigos, magistrados, e funcionários públicos - cada segmento querendo a satisfação de suas próprias ambições.

O Brasil tinha tudo para dar errado – conta Gomes. Tornou-se viável graças a “um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco”. Sábio foi José Bonifácio de Andrada e Silva, o único homem com um projeto de Brasil. Na sua visão, a maneira de impedir a fragmentação do país depois da separação de Portugal seria equipá-lo com “um centro de força e unidade”, sob o regime de monarquia constitucional. Desempenhou papel equivalente a Thomas Jefferson na Independência dos Estados Unidos. A princesa Leopoldina havia deixado o brilho da corte dos Habsburgo em Viena, para casar-se com um imperador mal-educado e mulherengo. Detestava o país tropical, calorento e cheio de mosquitos. Esqueceu a tristeza para ajudar na construção do país. Emprestou dinheiro da família para as primeiras despesas. Ajudou a redigir a Constituição e fez D. Pedro relacionar-se com São Paulo. O escocês louco chamava-se Thomas Alexander Cochrane, mercenário contatado por D. Pedro para criar a Marinha de Guerra brasileira. Sob a mira dos seus canhões as forças portuguesas se renderam na Bahia, no Maranhão e no Pará evitando que em 1823 o Brasil se fragmentasse em dois ou três países menores. O almirante Cochrane jaz enterrado na Abadia de Westminster, em Londres. É odiado em São Luís do Maranhão, cidade que saqueou sem piedade durante a Guerra da Independência.

À sabedoria de José Bonifácio, aos esforços cívicos da princesa Leopoldina e ao heroísmo-pirata de Cochrane devemos o Brasil com as dimensões continentais de hoje e com idioma único. Estaríamos muito melhor como Nação, não fosse a corrupção que já era incentivada por D. João VI. O rei dividia o butim da exploração econômica predatória com barões do açúcar, viscondes do café, condes das minas de ouro e diamantes e gentis-homens do tráfico de escravos, ainda o grande negócio brasileiro. Tínhamos mais nobres no Brasil do que em Portugal, com 736 anos de existência. A corte abrigava “luminares”, como a marquês de Barbacena que defendia a importação de “homens altos e claros” para promover o branqueamento da população brasileira e evitar que “os naturais do país se reduzam a anões cor de cobre”. Dois de Julho ou Sete de Setembro. O importante é que o Brasil sobreviveu.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

fonte: Jornal da Cidade (JC Bauru – www.jcnet.com.br), Ano XLV, nº 15118, domingo, 4 de setembro de 2011.

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Zarcillo Barbosa - Coluna Opinião - Jornal da Cidade (Bauru, SP) - 9/4/2011

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