Brasilidade no Vaticano

Vaticano, 9 de Julho de 1985

Estamos numa viagem de estudos-turismo. Advogados, juízes, promotores, procuradores, provenientes de todos os estados do Brasil, aproveitando a tradicional e competente organização do amigo e colega José Eustáquio Oswaldo, iniciamos o terceiro dia do Curso de Direito de Família, na Faculdade Urbaniana do Vaticano, no coração do Estado católico.

Antes do início da primeira palestra, um senhor de cerca de 75 anos, cabelos brancos, magro, ágil, surge no auditório trajando farda militar toda branca, exibindo várias divisas e símbolos, portando espada de oficial, e pede a palavra.

Nosso colega, o Dr. Nabor Nogueira , coronel da reserva, assume a tribuna perante inclusive os professores e diretores italianos e, com convicção, eloquência e invejável firmeza, lembra a luta paulista pelo estado de direito que se materializou na Revolução Constitucionalista de 1932, na qual pereceram pelo ideal maior cerca de 600 abnegados paulistas e 200 brasileiros que tombaram com as forças legalistas de Getulio Vargas.

Aquele senhor, até então anônimo para nós, enaltecia com grandeza e invulgar clareza a coragem dos paulistas que, cansados de vãs e falsas promessas, e ainda que inferiorizados no poderio das armas, foram à luta com o apoio de toda a população do estado e boa parte da nação brasileira, que com razão não se conformava com o engodo prenunciante de uma longa ditadura, escancarada a partir de 1937, com o "Estado Nôvo".

Em pleno Vaticano, comemora-se 53 anos da verdadeira Redentora, a que obrigou os vencedores pelo argumento da fôrça a se renderem à fôrça do argumento com a promulgação, em 1934, da nova Constituição Brasileira.

O velho coronel assume a figura de um jovem candente advogado, que não vacila mesmo quando alguns colegas gaúchos, ofendidos pelo gesto, abandonam o recinto.

Após cerca de vinte minutos de aula de civismo e amor aos princípios da democracia conquistada a tão duras penas, o coronel-doutor recebe da platéia brasileira e italiana o reconhecimento de sua bravura, que no momento encarna a de todos os combatentes que ofereceram suas vidas em prol de um país melhor.

A emoção que nos invade é indescritível, pois em terras longinquas um legítimo paulista e brasileiro tem a oportunidade de mostrar que História não se faz somente com o passar de longo tempo, mas sim por pensamento e ações que impregnam de ideal humano toda uma nação.

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São Paulo, 9 de Julho de 2007.

Nunca mais vi ou falei com o coronel Nabor, doutor em patriotismo no Vaticano. Há 22 anos o Brasil comemorou a volta da democracia, o primeiro presidente civil desde 1964, o início esperançoso de várias reformas. Hoje a Revolução Constitucionalista faz 75 anos, exatamente a idade do dr. Nabor naquele inesquecivel episódio.
Vinte e dois anos de plenitude democrática a fazer inveja aos países mais desenvolvidos. Promulgou-se a chamada Constituição Cidadã em 1988, o Congresso aprovou várias leis, algumas das quais de incotestável pioneirismo (p. ex. a de Proteção ao Consumidor), eleições diretas acontecem nos âmbitos federal, estadual e municipal, os poderes da República se revestem, aos poucos, da necessária responsabilidade e transparência, a nação expulsou um presidente sem que disparasse um tiro sequer. Desde 2005 a imprensa vem denunciando gravíssimas violações da confiança do eleitor brasileiro, que não merece alguns (infelizmente não poucos) dos representantes por ele eleitos. De forma capenga não obstante, os processos e procedimentos vão se sucedendo, no escopo de ao menos reduzir a chaga de corrupção que se abate sobre nosso tão democrático país.
Não sei por onde anda o coronel-doutor Nabor. Talvez ainda perambule por sua querida Taubaté, talvez já não esteja corporeamente conosco. De qualquer forma, em meu coração ele é imortal, vai ser um dos mais brilhantes exemplos de força e dedicação a uma nobre causa, pelo resto de meus dias.
Esteja onde estiver, dr. Nabor, espero que seus ideais não sejam mitigados pela torrente de mediocridades e safadezas das mais diversas naturezas que assolam nosso tão amado Brasil.
Hoje, para lavar um pouco nossa alma do lamaçal institucionalizado, lembremo-nos daquele dia sagrado dos paulistas que mostraram seu justo orgulho na terra em que Pedro e seus sucessores imortalizaram Aquele que criou a religião mais professada em nosso Brasil.
Orlando Maluf Haddad, Advogado, Ex-Vice Presidente, Conselheiro Federal e Seccional na OAB-SP

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MENSAGEM DA FAMÍLIA DO DR. NABOR NOGUEIRA:

Wednesday, August 01, 2007 8:50 AM
Querido colega Dr. Orlando.
Muito obrigada por ter me enviado o email sobre meu sogro. Ele foi um homem ímpar, um notável defensor de direitos; o conhecimento adquirido durante sua vida nunca ocupou espaço, muito pelo contrário, somente o abrilhantou muito mais. Pedir a voz em locais públicos sempre foi seu dom, a oratória com propriedade e sabedoria o acompanhou até a sua morte, que se deu em maio de 1988. Ele, até hoje é lembrado por todos os que conheceram e admirado pelos militares da ativa que sequer tiveram contato. Uma foto dele está colocada na sala do comandante da Polícia Militar daqui de Taubaté, como homenagem ao combatente, bem como para exemplo de dedicação, lealdade e amor à Pátria.
Abraços
Marly Ramon

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Prezada Marly
Tive o privilégio de conviver com dr. Nabor por apenas 25 dias. Foi uma lição para 100 anos de vida.
Saudações.
Orlando Maluf Haddad

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NOTA DA PATRIOTISMO:
Veja quem é o Adv. Orlando M. Haddad, em vídeo-entrevista sobre outro tema, na TV Câmara, no atalho: http://www.camara.gov.br/internet/tvcamara/default.asp?selecao=ARQUIVO&nome=tvcahoje20051117-01-005-wm.100.wmv&endereco=TV\2005\11/

Orlando Maluf Haddad - - 7/9/2007

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